Operação Compliance Zero mira conexões entre Nelson Tanure, Banco Master e fundos ligados à Ambipar
Mandados autorizados pelo ministro Dias Toffoli e relatório da CVM apontam estruturas societárias e operações financeiras que teriam impactado ações da Ambipar e o patrimônio do Banco Master
A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) avançaram nesta semana na investigação sobre uma suposta rede de fundos e estruturas financeiras que conectariam o empresário Nelson Tanure ao Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro. A apuração integra a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras atribuídas ao banco.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos após autorização do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que citou em sua decisão uma representação da Polícia Federal apontando Tanure “como sócio oculto do Banco Master, exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas”.
Além de Tanure, foram alvos da operação representantes do Banco Master e da Reag, gestora de recursos que, segundo os autos, foi liquidada pelo Banco Central do Brasil.
Defesa nega vínculo societário
Em nota enviada à imprensa, a defesa de Nelson Tanure negou qualquer relação societária com o Banco Master. O advogado Pablo Testoni afirmou que o empresário foi apenas cliente da instituição nos últimos anos.
“O empresário, que tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários, jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista”, diz o texto.
“O empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação.”
Procurada, a assessoria de Daniel Vorcaro informou que não se pronunciaria sobre o caso.
Relatório da CVM e ações da Ambipar
Paralelamente à investigação criminal, um relatório técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou uma atuação considerada “coordenada” e “interdependente” entre Tanure e o Banco Master em operações envolvendo a companhia de serviços ambientais Ambipar, que se encontra em recuperação judicial.
Segundo o documento, houve “uma sequência de operações e aportes que demonstraram clara convergência de interesses e estratégias entre esses agentes, com resultados que impactaram significativamente a estrutura acionária e a cotação da companhia no mercado”.
Entre os casos citados está o Fundo Phoenix FIP, que tinha como gestor e administrador a Trustee DTVM, empresa ligada ao grupo do Banco Master, e que teria como beneficiário final o próprio Tanure.
Aportes, privatização e valorização das ações
De acordo com os investigadores, em março de 2024 o Phoenix FIP recebeu um aporte de R$ 400 milhões. Um mês depois, o fundo venceu o leilão de privatização da Empresa Metropolitana de Águas e Energia de São Paulo (Emae), sucessora da Eletropaulo, em operação conduzida pelo governo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Em maio de 2024, o fundo recebeu novo investimento, desta vez de R$ 1,25 bilhão, no mesmo período em que a Ambipar anunciou um programa de recompra de ações. Conforme o relatório da CVM, o fundador da empresa e fundos geridos pela Trustee passaram a comprar papéis “de forma agressiva”, movimento que teria levado as ações a saltarem de cerca de R$ 13 para R$ 97,35 em pouco mais de um mês.
“As aquisições se mostraram ainda mais suspeitas quando se observou que os fundos envolvidos tinham cotistas e beneficiários finais ligados ao BANCO MASTER e a NELSON TANURE, revelando uma estrutura circular e interligada”, diz o relatório encaminhado ao MPF-SP.
As ações da Ambipar, segundo a apuração, foram utilizadas como garantia por Tanure para arrematar o leilão da estatal paulista.
Transferência de cotas e impacto contábil
O Ministério Público Federal também cita uma operação realizada em setembro de 2024, quando as cotas do Fundo ESNA FIP, que detinha exclusivamente ações da Ambipar, foram transferidas do Banco Master para um veículo de investimento ligado a Tanure, o Ilha de Patmos FIM, a um preço cerca de 40% inferior ao valor de mercado.
De acordo com os procuradores, a operação teria gerado ao Banco Master uma melhora em seu patrimônio líquido e um retorno financeiro estimado em R$ 296 milhões.
“Esses ganhos revelaram que o banco teve papel ativo e beneficiário direto da manipulação, aproveitando a elevação dos preços para reforçar sua posição contábil e financiar outras operações estratégicas”, afirmou o MPF em manifestação nos autos.
Investigação no STF e prejuízo aos investidores
A investigação chegou ao Supremo Tribunal Federal após a citação, no inquérito, de um deputado com foro por prerrogativa de função. Segundo o MPF, as ações da Ambipar que atingiram o patamar de R$ 97,35 teriam posteriormente caído para cerca de R$ 0,70, gerando, nas palavras dos investigadores, “prejuízo real aos investidores” e evidenciando a “artificialidade do patrimônio líquido” do Banco Master.
As apurações seguem em andamento, e as instituições envolvidas ainda podem apresentar novas manifestações e documentos no curso do processo.
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Nelson Tanure, Banco Master, Daniel Vorcaro, Polícia Federal, Ministério Público Federal, STF, Dias Toffoli, CVM, Ambipar, Operação Compliance Zero, mercado de capitais, fundos de investimento, investigação financeira
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