Toffoli, J&F e resort: transação de R$ 25,9 milhões em análise
Relatório do Coaf aponta transferência atípica entre conglomerado dos Batista e empresa que comprou participação do ministro do STF no empreendimento de luxo no Paraná
Em resumo
A J&F transferiu R$ 25,9 milhões à PHB Holding, que adquiriu as cotas de Dias Toffoli no resort Tayayá em fevereiro de 2025
O Coaf classificou a operação como atípica; Toffoli e a holding negam qualquer vínculo entre as transações
É a segunda operação milionária envolvendo as cotas do ministro; a primeira teve ligação com o caso Banco Master
O ministro já decidiu em favor da J&F em processo de multa bilionária em 2023
Por que isso importa: O caso reacende o debate sobre conflitos de interesse no Supremo e a transparência de negociações envolvendo autoridades públicas.
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que a J&F (conglomerado controlado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista) transferiu 25,9 milhões de reais para a PHB Holding, empresa que adquiriu as cotas do ministro Dias Toffoli (Supremo Tribunal Federal) no resort Tayayá, no Paraná. A transação, realizada entre fevereiro e outubro de 2025 e classificada como atípica, reacende questionamentos sobre conflitos de interesse no topo do Judiciário brasileiro.
A transação que o Coaf classificou como atípica
De acordo com o relatório de inteligência financeira obtido com exclusividade pelo Estadão, o repasse da J&F à PHB Holding foi uma das maiores transferências bancárias realizadas pelo grupo no período analisado de oito meses. O documento não revela a data exata da operação, mas confirma que ela ocorreu entre cinco de fevereiro e seis de outubro de 2025.
“Operações que, por sua habitualidade, valor e forma, configurem artifício para burla da identificação da origem, do destino, dos responsáveis ou dos destinatários finais.”
O Coaf enquadrou a transação em regras de reporte do Banco Central que sinalizam operações fora do padrão esperado para o perfil do cliente. A PHB Holding é administrada pelo advogado Paulo Humberto Barbosa, que tem histórico de prestação de serviços à JBS, braço operacional do conglomerado dos Batista.
Em 21 de fevereiro de 2025, a Maridt Participações S.A. — empresa dos irmãos de Toffoli — vendeu sua participação acionária no resort Tayayá para a PHB Holding. Apesar de o ministro já ter admitido publicamente a venda, o valor da transação entre Maridt e PHB nunca foi divulgado.
O histórico de aproximação entre Toffoli e a J&F
A relação entre o ministro e o conglomerado dos Batista não é nova. Em dezembro de 2023, Dias Toffoli proferiu decisão liminar que suspendeu o pagamento de uma multa de 10,3 bilhões de reais prevista em acordo de leniência firmado pela J&F com o Ministério Público Federal.
Naquele acordo, o grupo confessou a prática de diversas irregularidades. A decisão do ministro abriu caminho para que a J&F conseguisse, posteriormente, na Justiça Federal de Brasília, uma redução do valor da multa. O Ministério Público recorreu da decisão, e o processo segue em trâmite.
A cronologia dos fatos reforça a relevância do escrutínio público:
Dezembro de 2023: Toffoli suspende pagamento de multa bilionária da J&F
Fevereiro de 2025: Maridt vende cotas do Tayayá à PHB Holding
Fevereiro a outubro de 2025: J&F transfere R$ 25,9 milhões à PHB
Fevereiro de 2026: Relatório do Coaf vem a público via Estadão
A segunda operação milionária com as cotas do Tayayá
Esta não é a primeira transação financeira de grande porte envolvendo a participação de Toffoli no resort. Em fevereiro, o Estadão revelou que fundos controlados pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro (dono do liquidado Banco Master), também haviam adquirido fatia da Maridt no empreendimento.
Conversas apreendidas pela Polícia Federal indicam que o valor total investido por Vorcaro no Tayayá foi de trinta e cinco milhões de reais. Em fevereiro de 2026, a PF entregou ao STF um relatório com essas informações, autuado como pedido de suspeição de Toffoli no caso Master.
Pouco depois, o ministro admitiu publicamente, pela primeira vez, que era sócio da Maridt e detalhou as vendas:
Em 27 de setembro de 2021: cotas vendidas ao fundo Arleen, controlado por Zettel
Em 21 de fevereiro de 2025: cotas vendidas à PHB Holding
Em nenhuma das ocasiões Toffoli revelou os valores das negociações.
O que dizem os envolvidos
Procurados pela reportagem, os três lados apresentaram versões que negam qualquer ligação entre a transferência da J&F e a venda das cotas de Toffoli.
Em nota, o gabinete do ministro afirmou que “tem conhecimento pelos administradores da Maridt que a empresa se relacionou exclusivamente com a PHB Holding e que suas movimentações financeiras estão todas declaradas à Receita Federal do Brasil”.
Paulo Humberto Barbosa disse que os quase 26 milhões de reais recebidos da J&F referem-se a honorários advocatícios por serviços prestados ao grupo, especialmente em questões agrárias e tributárias em Goiás. Segundo ele, não há relação com a negociação da Maridt.
A J&F declarou que “não é sócia do Tayayá nem de qualquer empresa que nele possua participação” e reforçou que a relação com Barbosa é estritamente profissional: “A relação entre advogado e cliente não se mistura com nenhuma outra atividade desenvolvida por ele”.
Um detalhe adicional chamou a atenção: a Maridt registrou como endereço oficial a residência de José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro e engenheiro eletricista, em Marília, interior de São Paulo. Questionada, a esposa dele, Cássia Pires Toffoli, afirmou: “Essa casa é minha, financiei com o meu dinheiro, por vinte e cinco anos. Eu falei para as minhas irmãs que eu tenho vontade de sumir daqui. As pessoas ficam inventando coisas”.
Por que o caso importa para o STF e para o país
O episódio coloca em foco um tema sensível para a credibilidade do Judiciário: a transparência nas relações patrimoniais de ministros do Supremo Tribunal Federal. Quando uma autoridade que decide sobre processos bilionários mantém vínculos comerciais — ainda que indiretos — com partes interessadas, a percepção de imparcialidade pode ser comprometida.
Não se trata, neste momento, de afirmar ilícitos. Trata-se de exigir clareza. A classificação de “atípica” pelo Coaf não significa, por si só, ilegalidade. Mas acende um sinal amarelo que merece acompanhamento institucional.
O Ministério Público Federal, o Conselho Nacional de Justiça e a própria Corte do STF têm o dever de avaliar se há elementos para apuração mais aprofundada. A sociedade, por sua vez, ganha com a publicidade dos fatos — desde que baseada em dados verificáveis, como os que agora vêm à tona.
“A relação entre advogado e cliente não se mistura com nenhuma outra atividade desenvolvida por ele.” — Nota da J&F
O desfecho deste caso poderá influenciar não apenas a trajetória processual de Toffoli, mas também os parâmetros de conduta esperados de magistrados em posições de alto impacto político. Em um momento de intensa polarização e desconfiança nas instituições, a coerência entre discurso e prática é o menor — e mais essencial — requisito para preservar a legitimidade do Poder Judiciário.
Leia também: Da medalha de cidadão honorário à suspeição da PF: o que liga Dias Toffoli ao resort Tayayá e ao Caso Banco Master
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Relatório do Coaf aponta transferência de R$ 25,9 mi da J&F para empresa que comprou cotas de Toffoli no resort Tayayá. Entenda os desdobramentos.
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