Rodrigo Bacellar é preso após cassação e perda de foro privilegiado
Ex-deputado estadual do Rio é alvo da terceira fase da Operação Unha e Carne; decisão do TSE sobre o caso Ceperj derrubou mandato e abriu caminho para nova prisão pela PF
Em resumo
Rodrigo Bacellar (ex-União Brasil) foi preso em Teresópolis (RJ) pela Polícia Federal, por ordem do STF, após perder o mandato de deputado estadual
A prisão integra a terceira fase da Operação Unha e Carne, vinculada à ADPF 635/RJ, que investiga vazamentos de informações sigilosas a grupos criminosos
O Tribunal Superior Eleitoral cassou o mandato de Bacellar nesta semana por envolvimento no escândalo da Ceperj — o mesmo que atingiu o ex-governador Cláudio Castro
A cassação provoca recontagem dos votos das eleições de 2022 no Rio, com impacto potencial na composição da Alerj; retotalização está marcada para terça-feira (31)
Por que isso importa: O caso expõe a intersecção entre Justiça Eleitoral, investigação criminal e poder legislativo estadual, com desdobramentos que podem reconfigurar alianças políticas no Rio e influenciar o cenário nacional rumo a 2026
O ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar (ex-União Brasil) foi preso nesta sexta-feira (27) em sua residência, em Teresópolis (RJ), por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). A prisão, executada pela Polícia Federal, ocorre após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassar seu mandato — decisão que retirou a prerrogativa de foro que antes exigia aval da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para qualquer medida cautelar.
Operação Unha e Carne chega à terceira fase com foco em vazamentos
A prisão de Bacellar integra a terceira fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal para apurar supostos vazamentos de informações sigilosas de operações policiais a integrantes do Comando Vermelho, facção criminosa atuante no Rio de Janeiro. Segundo a PF, a ação desta sexta-feira está diretamente vinculada à ADPF 635/RJ, conhecida como “ADPF das Favelas”, processo no STF que estabelece obrigações específicas para investigações de grupos criminosos no estado.
“A perda do mandato parlamentar removeu a barreira processual que exigia deliberação da Alerj para prisão de deputado”, afirma nota da Polícia Federal.
Além do mandado de prisão preventiva, foi cumprido um mandado de busca e apreensão no imóvel de Bacellar. O ex-deputado foi encaminhado à Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, onde permanecerá à disposição da Justiça.
Cassação no TSE: o elo entre Ceperj e a queda de Bacellar
Nesta semana, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a cassação do mandato de Bacellar por sua conexão com o chamado escândalo da Ceperj — esquema de irregularidades na empresa de processamento de dados do estado do Rio que também resultou na perda de mandato e inelegibilidade do ex-governador Cláudio Castro (Republicanos).
A decisão do TSE determinou a exclusão dos votos recebidos por Bacellar nas eleições de 2022 e a chamada “retotalização”, procedimento que recalcula a distribuição das vagas na Alerj com base nos votos válidos remanescentes. A recontagem está agendada para terça-feira (31) e pode alterar não apenas a vaga originalmente ocupada por Bacellar, mas também a composição geral da Assembleia.
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Impacto imediato da cassação:
Perda do foro privilegiado por crime comum (prisão passou a depender apenas de decisão judicial, não mais da Alerj)
Abertura para execução de mandados de prisão preventiva já existentes
Reconfiguração potencial do quociente eleitoral na Alerj
Possível ascensão de suplentes ou redistribuição de cadeiras entre partidos
Antecedentes: prisão em dezembro e medidas cautelares
Bacellar já havia sido preso em dezembro de 2025, também no âmbito da Operação Unha e Carne, sob suspeita de envolvimento em vazamento de dados de uma operação policial contra o Comando Vermelho. Na época, foi liberado dias depois com medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e proibição de contato com investigados.
Na ocasião, o STF havia determinado que a Alerj deveria se manifestar sobre a manutenção ou não da prisão preventiva, em razão da imunidade parlamentar relativa prevista na Constituição. Com a cassação do mandato pelo TSE, essa prerrogativa deixou de existir — abrindo caminho para a execução imediata do novo mandado de prisão.
“A imunidade parlamentar não é privilégio pessoal, mas garantia institucional. Uma vez extinto o mandato, cessa a proteção”, observa jurista consultado pelo Painel.
Denúncia da PGR: vazamentos e conexão com o Judiciário
No dia 16 de março, a Procuradoria-Geral da República (PGR) ofereceu denúncia formal contra Bacellar por vazamento de informações sigilosas ao Comando Vermelho. Também foram denunciados o ex-deputado estadual TH Joias, o desembargador federal Macário Neto e mais duas pessoas.
Segundo a PGR, as informações vazadas sobre uma operação da Polícia Federal contra o Comando Vermelho teriam origem em um integrante do Poder Judiciário. Bacellar é acusado de repassar esses dados ao então deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias — que, por sua vez, teria feito a ponte com lideranças da facção.
A investigação aponta que o fluxo de informações privilegiadas permitiu que alvos da operação policial se antecipassem às ações, comprometendo a eficácia das diligências e colocando em risco a segurança de agentes públicos.
O que muda na Alerj com a recontagem de votos
A retotalização determinada pelo TSE não é mera formalidade técnica. No sistema proporcional brasileiro, a exclusão dos votos de um candidato cassado pode redistribuir cadeiras entre partidos e coligações, especialmente em casas legislativas com margens apertadas.
No caso do Rio de Janeiro, a Alerj tem 70 cadeiras. A saída de Bacellar — e a consequente exclusão de seus votos — pode beneficiar legendas que ficaram abaixo do quociente eleitoral em 2022, mas que agora podem ultrapassar o threshold com os votos remanescentes.
Cenários possíveis após a retotalização de 31 de março:
Ascensão de suplente do próprio partido de Bacellar (União Brasil)
Redistribuição da vaga para partido de coligação proporcional
Alteração no equilíbrio de forças entre blocos de apoio e oposição ao governo estadual
O Painel acompanha os desdobramentos e trará atualização assim que o Tribunal Regional Eleitoral do Rio divulgar o resultado oficial.
Por que este caso importa para o leitor nacional
Embora o caso tenha epicentro no Rio de Janeiro, suas implicações ultrapassam as fronteiras estaduais. A intersecção entre Justiça Eleitoral, investigação criminal e imunidade parlamentar toca em temas estruturais da democracia brasileira: os limites da prerrogativa funcional, a eficácia do combate ao crime organizado e a transparência no uso de dados públicos.
Além disso, o escândalo da Ceperj — que agora atinge Bacellar e Castro — revela vulnerabilidades sistêmicas na gestão de tecnologia da informação por governos estaduais, com riscos que vão desde fraudes eleitorais até comprometimento de operações de segurança pública.
Em ano pré-eleitoral, casos como este reforçam a demanda por mecanismos mais ágeis de responsabilização de agentes públicos e por reformas que reduzam a zona cinzenta entre proteção institucional e impunidade.
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