Nelson Tanure e Banco Master: o que revela a investigação
Empresário que construiu império em empresas em crise tem bens congelados enquanto apuração federal examina transações de R$ 1,6 bilhão com instituição liquidada pelo BC
Em resumo
Investigação federal examina se Nelson Tanure atuou como sócio oculto do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 2025
Documentos apontam investimentos de pelo menos R$ 1,6 bilhão via veículos como Estocolmo e Aventti Strategic Partners em títulos da Banvox, holding do banco
Operações interligadas envolvem empresas do portfólio de Tanure — Dia, Emae, Alliança Saúde e Light — usando recursos do Master para aquisições e garantias
Por que isso importa: o caso expõe fragilidades na regulação de investimentos corporativos e pode redefinir responsabilidades em esquemas financeiros complexos no Brasil
Durante anos, Nelson Tanure (empresário) foi um dos nomes mais influentes do mercado de reestruturação empresarial no Brasil. Investiu em mais de duzentas empresas em dificuldade financeira e construiu participações em setores estratégicos, do petróleo às telecomunicações. Agora, enquanto investigadores federais apuram se ele atuou como sócio oculto do Banco Master (instituição liquidada pelo Banco Central), o império de Tanure enfrenta seu momento mais delicado: bens congelados, liquidação forçada de participações e queda acentuada no valor de ações de suas empresas.
“O que está emergindo da investigação sugere um ecossistema complexo e circular de fundos ligados ao Banco Master, que parece ter sustentado muitas de suas posições corporativas”, afirma Cesar Fernandez (sócio da Alpha Credit Advisors).
O caso não se resume a uma única transação suspeita. Envolve uma rede de veículos de investimento, títulos de dívida não conversíveis que passaram a permitir pagamento em ações, empresas do portfólio usando recursos do banco para operações estratégicas e uma relação pessoal próxima entre Tanure e Daniel Vorcaro (fundador do Banco Master), hoje preso em Brasília. Tanure, por meio de representantes, nega qualquer irregularidade e afirma manter apenas relações comerciais legítimas com a instituição.
Como funcionavam as transações entre Tanure e o Banco Master
De acordo com documentos analisados pela Bloomberg, Tanure investiu pelo menos R$ 1,6 bilhão no Banco Master a partir de 2020. Os recursos foram alocados por meio de veículos de investimento sob sua influência, incluindo o Estocolmo e uma empresa offshore denominada Aventti Strategic Partners LLP.
Esses veículos adquiriram debêntures locais da Banvox, holding cujo único ativo era o Banco Master. As compras desses títulos foram seguidas, em curto intervalo, por aumentos de capital de valores semelhantes injetados diretamente no Banco Master. Embora os títulos não fossem formalmente conversíveis em ações, a partir de dezembro de 2022 alguns passaram a permitir o pagamento de cupons utilizando ações da própria Banvox.
Se esses pagamentos em ações foram efetivamente realizados, Tanure poderia ter se tornado acionista indireto da instituição financeira — o que contrariaria sua posição pública de que nunca foi sócio, controlador ou beneficiário do banco. Um representante de Tanure afirmou que as debêntures emitidas pela Banvox “não permitiam conversão em ações ou participação societária em caso de inadimplência” e que o empresário “mantinha com a instituição apenas relações comerciais legítimas, como cliente”.
Leia também: Operação Compliance Zero mira conexões entre Nelson Tanure, Banco Master e fundos ligados à Ambipar
Perfil em contraste: discrição versus ostentação
A aproximação entre Tanure e Vorcaro teria ocorrido por volta de 2020, intermediada por Mauricio Quadrado (ex-sócio do Banco Master), segundo fontes familiarizadas com o assunto. Os dois desenvolveram uma relação próxima apesar de estilos de vida marcadamente distintos.
Tanure, de setenta e quatro anos, descreve-se como “introvertido” e “solitário”. Raramente concede entrevistas, prefere tragédias shakespearianas e música clássica a eventos sociais, e orgulha-se de que seus quatro filhos viajem de classe econômica. Veste-se com discrição e evita holofotes.
Vorcaro, de quarenta e dois anos, adotava postura oposta: jato particular, festas em iates no Grande Prêmio de Mônaco, comemoração de quinze anos da filha com custo estimado em quase três milhões de dólares e relacionamento público com a influenciadora Martha Graeff. Mensagens de WhatsApp divulgadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro presenteou Tanure com um relógio suíço Jaeger-LeCoultre por seu septuagésimo aniversário, em 2021, e o tratava pelo apelido “grande comandante”. Tanure confirmou o presente, mas não comentou a natureza da relação.
Vorcaro foi preso pela segunda vez no início de março, sob acusações que incluem ameaça a jornalista, supervisão de acessos não autorizados a sistemas do FBI e da Interpol, e interferência em investigações sobre o Banco Master. Na semana passada, firmou acordo de cooperação com autoridades federais, segundo apurado pela Bloomberg.
Empresas do portfólio e o uso de recursos do Master
A interligação entre os negócios de Tanure e o Banco Master se intensificou nos últimos dois anos. Um exemplo emblemático é a rede de supermercados Dia, adquirida por Tanure durante processo de recuperação judicial em 2024 com apoio de fundos administrados pelo Banco Master. Em dezembro de 2025, a empresa informou ter utilizado cerca de setenta por cento de seu caixa — aproximadamente R$ 163,3 milhões na época — para comprar títulos do Letsbank, instituição do grupo Master.
Outro caso é a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia SA), da qual Tanure era acionista à época. A companhia comprou R$ 140 milhões em títulos do Banco Master, valor equivalente a cinco vírgula oitenta e oito por cento de seus ativos totais em novembro de 2025.
“A aquisição de CDBs pelas companhias seguiu o mesmo padrão adotado por diversas outras empresas, uma vez que os títulos emitidos pelo banco naquele período apresentavam boa rentabilidade”, afirmou representante de Tanure.
A área técnica da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) identificou, em relatório, uma ação “interdependente e coordenada” entre Tanure, o Banco Master e o presidente da Ambipar para comprar ações da empresa de gestão de resíduos e impulsionar seu preço em 2024. Os três negaram irregularidades. Segundo a CVM, a operação aumentou o valor da participação do Banco Master na Ambipar, enquanto Tanure usou as ações da empresa como garantia em pacote de dívida para financiar a aquisição da Emae.
Tanure e o presidente da Ambipar, Tercio Borlenghi Júnior, perderam o controle da Emae quando a dívida não foi honrada. A Ambipar pediu recuperação judicial em outubro, e credores, incluindo o Banco Bradesco, moveram ação para responsabilizar a administração por possível fraude “ostensiva”.
A Trustee, a Reag e a rede de gestoras sob escrutínio
O Banco Master e Tanure também utilizaram serviços e fundos da Trustee DTVM, gestora de ativos pertencente a Quadrado. Fundos administrados pela Trustee estão sob investigação da Polícia Federal como parte de operação interestadual para desmantelar esquemas de lavagem de dinheiro ligados à distribuição de combustíveis.
Entre 2021 e 2023, Tanure usou recursos geridos pela Trustee para assumir o controle da Alliança Saúde, tendo a corretora do Banco Master atuado como sua representante em leilão na B3 (Bolsa de Valores do Brasil). Em 2023, pagou R$ 891 milhões para adquirir o restante da empresa. Em dezembro, a CVM reabriu inquérito sobre a aquisição, apurando a demora de mais de trinta dias para o início do processo, conforme noticiado pela imprensa local.
Na semana passada, a Alliança Saúde obteve medida cautelar de proteção contra credores, em meio a dificuldades para honrar compromissos financeiros. Tanure, por meio de representante, afirmou que a oferta pública de aquisição “sempre fez parte do plano de compra” e foi realizada com recursos disponíveis.
A Reag Trust Administração de Recursos, gestora que administrou fundos usados por Tanure na tentativa de aquisição do GPA (Cia Brasileira de Distribuição) em 2024, também está sob investigação por possível envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro. A gestão desses fundos foi transferida para a Trustee em janeiro de 2025. O advogado de Tanure esclareceu que seu cliente “nunca foi cliente da Reag”.
A estratégia de risco e o momento de contração
Tanure construiu sua reputação assumindo riscos calculados em empresas em dificuldade. “É o risco que gera riqueza”, afirmou em podcast em 2024. Disse ainda que foi motivado a investir nesse perfil de negócios por sua “completa falta de dinheiro” no início da carreira: “Se eu tivesse dinheiro, teria comprado ações de empresas como Alphabet e Microsoft”.
Formado em administração de empresas na década de 1970 por universidade pública da Bahia, com passagem por Paris, Tanure começou a trabalhar na imobiliária do pai. Frustrado com as oportunidades no estado, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1977 e passou a focar em empresas altamente endividadas. Um de seus primeiros investimentos foi participação minoritária na Sequip, do setor de petróleo e gás.
Nas décadas seguintes, expandiu para engenharia, setor marítimo e estaleiros — incluindo Verolme e Ishibras. Em 2001, adquiriu a Companhia Docas do Rio de Janeiro, transformada na holding Docas Investimentos. Tentou comprar a Oi em 2016, adquiriu e fechou o Jornal do Brasil e a Gazeta Mercantil, ingressou no conselho da Gafisa em 2019 e ajudou a transformar a Prio em uma das maiores petrolíferas do país.
Nem todas as ambições se concretizaram. Perdeu disputa pela UnitedHealth no Brasil em 2023, desistiu de investir na Sabesp em 2024 e abandonou plano de controle da Braskem devido a preocupações com impacto de desastre ambiental em Alagoas no balanço da empresa.
O aperto financeiro e a reconfiguração do império
No último ano, as taxas de juros mais altas do Brasil em duas décadas começaram a pressionar o portfólio altamente alavancado de Tanure. Com o agravamento da crise do Banco Master, o empresário enfrentou contração ainda maior de crédito.
Em fevereiro, credores tomaram medidas para assumir parte das participações de Tanure na Alliança Saúde e na Light. O empresário já vendeu quase toda a sua participação na Prio — considerada a “joia da coroa” de seu império — e na Ligga Telecomunicações para honrar compromissos com credores.
Apesar do cenário adverso, representantes de Tanure afirmam que ele “ainda busca bons negócios e está comprometido com o crescimento das empresas em que investiu”. Em entrevista ao podcast em 2024, refletiu: “A capacidade de recuar é uma grande virtude, e mudar de rumo é uma grande virtude. Eu recuei muitas vezes na minha vida. Na hora que você sentir que você vai perder, também não é nada demais perder, recue, se fortaleça e volte.”
O que está em jogo além do caso individual
O escândalo do Banco Master, com Tanure no centro das apurações, coloca em teste a capacidade regulatória brasileira de acompanhar estruturas financeiras cada vez mais complexas e interconectadas. Se confirmadas práticas de sociedade oculta ou uso indevido de veículos de investimento para contornar limites regulatórios, o caso pode gerar precedentes importantes para a responsabilização de investidores em esquemas corporativos sofisticados.
Para o mercado, a questão central é: até que ponto um investidor pode se beneficiar de relações comerciais intensas com uma instituição financeira sem assumir responsabilidades de controle? Para a sociedade, o desdobramento importa porque define parâmetros de transparência e governança em um momento de recuperação da confiança no sistema financeiro.
A investigação segue em andamento. Tanure afirma confiar que “os fatos serão esclarecidos”. Vorcaro, em acordo de colaboração, pode trazer novos elementos. O que emerge, por enquanto, é um retrato de como estratégias agressivas de crescimento, quando combinadas com estruturas opacas de financiamento, podem colapsar sob o peso de sua própria complexidade.
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Com informações de O Globo




