Painel Político - A engrenagem do poder sob análise

Painel Político - A engrenagem do poder sob análise

Painel One

Ibaneis Rocha, J&F e R$ 25 milhões: o que o Coaf encontrou no escritório do governador

Documentos do órgão de inteligência financeira apontam transferências atípicas da holding dos irmãos Batista à banca do governador — no mesmo período em que J&F firmou contratos com o GDF

Avatar de alan.alex@painelpolitico.com
alan.alex@painelpolitico.com
mar 20, 2026
∙ Pago

Leitura: 6–8 min

Em resumo

  • O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou R$ 25 milhões transferidos pela J&F ao escritório de advocacia do governador Ibaneis Rocha (MDB) em dez operações entre fevereiro e outubro de 2025.

  • No mesmo período, o grupo J&F — por meio do PicPay — mantinha parceria formal com o governo do DF para oferecer antecipação salarial a 200 mil servidores distritais.

  • O filho do governador, Caio Carvalho Barros, adquiriu em março de 2025 um duplex de R$ 9,2 milhões que havia pertencido ao presidente do Conselho de Administração do PicPay — sobrinho dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

  • O BRB, banco público controlado pelo governo do DF, injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master — instituição ligada à Reag, que também movimentou dezenas de milhões com o mesmo escritório.

  • Por que isso importa: O caso conecta, pela primeira vez de forma documental, o grupo J&F, o BRB, o escândalo do INSS e o escritório de advocacia do governador numa única teia financeira que já tem endereço: o Palácio do Buriti.


Crédito: Ed Alves CB/DA Press

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou dez transferências da J&F Participações — holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista — ao escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), totalizando R$ 25.057.735,00. As movimentações ocorreram entre fevereiro e outubro de 2025, foram classificadas como “atípicas” pelo órgão e chegaram ao conhecimento público por meio de documentos obtidos pelo Estadão. À época dos repasses, Ibaneis estava no pleno exercício do cargo.

O caso insere-se num contexto mais amplo de crise que já dura meses em torno do Buriti: o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria vendeu pelo menos R$ 85,5 milhões em honorários para fundos ligados ao Banco Master e à Reag Investimentos, com negócios fechados entre 2019 e 2024 — desde o início do primeiro mandato do governador até o começo das negociações do Banco de Brasília (BRB) com o Master. Os R$ 25 milhões da J&F, agora revelados pelo Coaf, adicionam uma nova e distinta frente a esse universo.

Como o Coaf enquadrou as movimentações como atípicas

As dez transferências da J&F ao escritório do governador foram registradas automaticamente pelo sistema do Coaf por envolverem operações de valor superior a R$ 50 mil — patamar que, por lei, exige comunicação obrigatória ao órgão. A classificação como “atípicas” indica que o perfil dos pagamentos não condizia com o padrão esperado para aquele tipo de relacionamento entre as partes.

O escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria confirmou a relação comercial com o grupo. Em nota, afirmou que “prestou e presta serviços advocatícios para o referido grupo em centenas de ações judiciais em múltiplas esforas”, mas não detalhou a natureza específica dos pagamentos identificados pelo Coaf. A banca repudiou o que chamou de “tentativa de criminalizar a advocacia, sem a qual não há de se falar em Estado Democrático de Direito”.

A J&F, por sua vez, afirmou que todos os seus pagamentos se referem “a produtos ou serviços comprovadamente prestados, mediante emissão de nota fiscal e recolhimento de todos os tributos devidos”, destacando que mantém auditorias independentes que certificam seus processos internos.

Ibaneis não respondeu ao Estadão. Sua assessoria redirecionou as perguntas ao escritório. Os advogados da banca reiteraram que o governador está “afastado do escritório desde 2018, de modo que desconhece tais informações”. A afirmação, no entanto, encontra resistência nos próprios documentos do caso.

Sócio sem gestão — mas com lucros

A narrativa do “afastamento desde 2018” é o argumento central da defesa de Ibaneis. Mas há uma distinção jurídica e financeira relevante: afastar-se da gestão operacional não equivale a abrir mão dos benefícios econômicos da sociedade.

Ibaneis permanece como sócio da banca. A administração do escritório está formalmente a cargo de Luzineide Getro de Carvalho, ex-mulher do governador. O filho, Caio Carvalho Barros, de 27 anos, também integra a sociedade. Isso significa que Ibaneis tem direito aos lucros auferidos pelo escritório — o que torna relevante, do ponto de vista do conflito de interesses, qualquer grande contrato firmado pela banca durante seu mandato.

“Não se trata de um episódio isolado. Há uma engrenagem em funcionamento que precisa ser desvelada.” — Membro da CPI do Master, conforme relatado por Hora do Povo

Documentos registrados em cartório contradizem o afastamento: a assinatura de Ibaneis Rocha aparece não apenas como representante, mas como avalista e responsável solidário em negociações com fundos do grupo investigados pela Polícia Federal. A banca contestou esse dado, alegando tratar-se de “erro material” nos documentos.

O PicPay no governo do DF — e o caminho para o INSS

Os pagamentos da J&F ao escritório de Ibaneis coincidem temporalmente com a entrada do PicPay — banco digital do conglomerado J&F — no governo distrital.

Em 16 de setembro de 2024, o PicPay assinou um termo de compromisso com o governo de Ibaneis Rocha para oferecer um serviço de antecipação salarial a cerca de 200 mil servidores do Distrito Federal. A parceria foi possível graças a um decreto editado por Ibaneis em 7 de agosto de 2024 que autorizou o governo a firmar convênios relacionados a consignações.

Caro leitor: a partir daqui, o texto muda de natureza.

Saímos do relato verificável e entramos na análise — o que os documentos ainda não dizem, o que as fontes indicam nos bastidores e qual o cenário mais provável para os próximos capítulos desta crise.

Esse tipo de jornalismo tem custo. E tem endereço: Painel One, o plano de acesso completo ao Painel Político. Nós trabalhamos com visual limpo, sem ads irritantes ou propagandas online que cansam com aquelas janelas pulando.

Por menos de R$ 1 por dia, você acompanha cada dobra dessa história — Logo mais, no fim do dia, você vai conferir uma análise, áudio exclusivo.

👉 Quero assinar o Painel One Prefere conhecer todas as opções antes?

O que se seguiu abriu uma segunda frente de investigação. O banco digital utilizou o acordo com o governo do DF para apresentar ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) um serviço de crédito consignado. O programa, batizado de “Meu INSS Vale+”, acabou suspenso por descumprimento de normas que proíbem a cobrança de taxas não autorizadas.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de Painel Político - Blog.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 Alan Alex · Publisher Privacy ∙ Publisher Terms
Substack · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura