Herança de R$ 2 bilhões, duas mulheres e uma empresária em coma: A guerra judicial pelo império das Casas Pernambucanas
Com uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões e há quase dez anos em coma, a herdeira das Casas Pernambucanas tornou-se alvo de uma disputa judicial explosiva — agora revelada em documentário no Globoplay
Uma das disputas judiciais mais complexas e prolongadas do Brasil envolve uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões, dois relacionamentos afetivos contestados na Justiça, um filho cujos laços familiares precisaram ser provados em tribunal — e uma mulher que, há quase dez anos, não pode falar por si mesma.
Anita Harley, principal acionista das Casas Pernambucanas — rede varejista centenária e um dos maiores impérios do varejo brasileiro —, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em novembro de 2016 e desde então permanece internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em estado de coma. Considerada clinicamente viva, mas incapaz de tomar qualquer decisão sobre sua própria vida ou patrimônio, a empresária tornou-se, paradoxalmente, o centro de uma batalha que movimenta o Judiciário e expõe os bastidores de um poder construído ao longo de décadas.
A história ganhou novos contornos nesta segunda-feira (23 de fevereiro de 2026), com a estreia no Globoplay da série documental “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, produção original do Núcleo de Documentários dos Estúdios Globo, com direção de Camila Appel, codireção de Dudu Levy e direção artística de Monica Almeida. O roteiro é assinado por Ricardo Calil, Camila Appel e Iuri Barcelos, resultado de cinco anos de investigação jornalística. A série conta com cinco episódios disponibilizados simultaneamente, sendo o primeiro aberto também para não assinantes.
Entre a vida e o silêncio
O estado de Anita Harley é descrito pela diretora Camila Appel com clareza perturbadora: “A Anita se encontra num estado que é um grande pesadelo para todos nós, que é um estado em que você é considerado vivo. Clinicamente vivo, né. Mas não pode responder nem tomar decisões.”
É exatamente essa impossibilidade de fala que alimenta e torna tão singular o conflito. Sem que a empresária possa confirmar ou negar qualquer versão apresentada, a disputa se desdobra em versões contraditórias, documentos judiciais e depoimentos que, muitas vezes, se anulam mutuamente. É nesse vácuo que prosperam tanto as reivindicações afetivas quanto as disputas patrimoniais.
As duas companheiras e o embate pelo reconhecimento
O núcleo da batalha judicial está na disputa pelo reconhecimento de quem foi — e é — a verdadeira companheira de Anita Harley.
De um lado, Sônia Soares, conhecida como Suzuki, que residia junto com a empresária em uma mansão de 96 cômodos e 37 banheiros no bairro da Aclimação, em São Paulo — imóvel doado por Anita a Sônia e avaliado em R$ 50 milhões. Um ano após a internação da empresária, em 2017, Sônia ingressou com uma ação judicial alegando que as duas mantinham uma união estável há 36 anos. A Justiça reconheceu a relação, conferindo a Sônia o status legal de companheira e, consequentemente, direitos sobre a herança.
No documentário, Sônia explica sua motivação para tornar pública sua história: “Eu estou aqui porque eu preciso da minha história e não da história que contam.” Ao ser perguntada sobre quanto tempo viveram juntas, ela respondeu: “36 anos. Até o AVC.” E, sobre seus sentimentos pela empresária: “Muito” — quando questionada se a amava.
Do outro lado da disputa está Cristine Rodrigues, descrita como secretária de confiança de Anita Harley e apontada em um testamento vital como a pessoa responsável pelos cuidados da empresária em caso de incapacidade. Cristine também reivindica judicialmente ser a verdadeira companheira da empresária. “Ela é minha companheira de vida”, declarou ao documentário.
Questionada sobre a versão de Sônia, Cristine foi direta ao rebater: “Olha. Não preciso nem enxergar. Ninguém pode estar em dois lugares. Será que não dá pra entender? Não vale a pena.”
A coexistência dessas duas narrativas — ambas sustentadas com convicção por suas protagonistas, ambas com respaldo em elementos concretos e decisões judiciais distintas — é o coração dramático e jurídico da série.
O filho que precisou provar que existia
Outro personagem central da trama é Artur Miceli, filho biológico de Sônia Soares. A Justiça reconheceu Artur como filho socioafetivo de Anita Harley, o que lhe confere direitos como herdeiro da empresária. A decisão, no entanto, é duramente contestada por Cristine Rodrigues.
Para Artur, a disputa representou um processo doloroso de ter de justificar publicamente a própria existência e os vínculos afetivos que constituíram sua família: “Eu acho que a única forma que eu tenho de tirar essa narrativa da mão dos outros é que eu possa contar a minha história. É muito ruim você ter que provar que você existe. E que eu tive uma família, e que eu fui amado, e que eu tive estrutura e tal, é muito chato. Porque parece que eu só vim, que eu sou um produto criado pra ir atrás de uma herança.”
Cristine Rodrigues apresenta uma visão completamente oposta. Para ela, a generosidade de Anita com funcionários e pessoas ao seu redor não equivalia a laços de maternidade: “Anita tratava ele bem, como você trata uma criança que mora na sua casa. O fato de você tratar bem uma criança, de você pagar os estudos dessa criança... é normal. Não é só dele que ela pagava. Faculdade, colégio. Pagava convênio de muita gente. Já deu casas pra funcionários, carros. Ela era uma pessoa muito, muito generosa. O fato de tratar bem, gostar do menino, não quer dizer que seja filho. Ela nunca se referiu a ele como filho. Se ele disser isso, ele está mentindo.”
Segundo informações divulgadas durante a produção, um quarto episódio da série é dedicado a Daniel Silvestri, advogado de Sônia Soares que chegou a ocupar a presidência das Casas Pernambucanas ao longo do processo judicial — o que adiciona mais uma camada de complexidade à trama, evidenciando como a disputa transcendeu o âmbito familiar e atingiu diretamente a gestão corporativa do grupo varejista.
Cinco anos de investigação e uma narrativa entre o real e a ficção
Para dar conta da densidade desse caso, a produção optou por uma escolha estética singular: os cenários foram todos reconstruídos em estúdio, e essa artificialidade é assumida deliberadamente. “A gente optou pela ideia de reconstruir os cenários todos num estúdio e escancara isso. A gente não finge que aquele cenário é a casa. A gente mostra o estúdio. Tinha essa intenção de transformar aquela narrativa numa narrativa com mais cara de ficção mesmo”, explicou Monica Almeida, diretora de gênero da Globo.
A abordagem reflete também a postura investigativa adotada pela diretora Camila Appel ao longo dos cinco anos de trabalho. Segundo ela, a busca por uma verdade única deu lugar a algo mais honesto — e mais revelador: “Eu até estava em busca de uma verdade. Mas no meio do caminho eu percebi que eu não ia conseguir alcançá-la. E eu acho que abrir mão dessa busca me fez muito bem no processo de investigação e no resultado da série. Porque aí eu foquei em trazer a complexidade dessa história, trazer todas as vozes, que são muitas, e elas realmente brigam entre si. E me desprender da ideia de que pode ter uma única verdade. Talvez todo mundo ali enxergue a sua verdade.”
Para Camila Appel, a série também provoca uma reflexão de alcance universal: “É uma série que fala sobre o que pode acontecer com aqueles que não podem falar por si mesmos. Isso gera uma identificação de todo mundo, de pensar: puxa, e se acontecesse comigo?”
O futuro das Casas Pernambucanas e os limites do judiciário
Enquanto a batalha judicial segue em curso — o processo ainda está ativo e o roteiro foi ajustado até o último momento antes da entrega —, o futuro das Casas Pernambucanas permanece incerto. O grupo, que representa um dos pilares do varejo brasileiro, tem sua gestão diretamente afetada pelos desdobramentos da disputa sobre a curatela de sua principal acionista.
O caso levanta questões que vão além do patrimônio: ele expõe os limites do sistema jurídico para lidar com situações em que a vontade do indivíduo não pode mais ser expressa, os conflitos entre testamentos vitais e decisões posteriores da Justiça, e as disputas afetivas que emergem quando o poder e o dinheiro entram em cena.
O desfecho da investigação, segundo a produção, guarda uma revelação inédita — informações que ainda não foram apreciadas pela Justiça — e que promete novamente reposicionar o olhar sobre todos os envolvidos.
Por ora, Anita Harley permanece em silêncio. E é nesse silêncio que prospera uma guerra que já dura quase uma década.
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