Fúria perde espaço com entrada de Netto e Hildon: a armadilha do apoio de Rocha
Com a entrada de Expedito Netto no PT e Hildon Chaves no UB, o prefeito de Cacoal perde o monopólio do voto de oposição moderada e precisa reinventar sua narrativa antes que o campo se fragmente
Em resumo
Adaílton Fúria (PSD) enfrenta o maior revés estratégico de sua pré-campanha ao governo de Rondônia em 2026 com a entrada formal de Expedito Netto (PT) e Hildon Chaves (União Brasil) na disputa.
A chegada dos dois novos candidatos pulveriza o eleitorado de centro e centro-esquerda que naturalmente convergiria para Fúria num cenário mais simples.
O apoio público do governador Marcos Rocha colou no prefeito de Cacoal a pecha de “candidato do governismo”, comprometendo seu discurso de renovação.
Fúria precisará redesenhar posicionamento, alianças e narrativa antes das convenções para não chegar ao primeiro turno como favorito no papel, mas pressionado pelas flancos.
Por que isso importa: A disputa em Rondônia começa a revelar como o espectro eleitoral do estado, majoritariamente conservador, pode ser decidido não pelo campo da direita, mas pela fragmentação do centro — e quem melhor navegar esse labirinto chegará ao segundo turno.
O candidato que parecia ter tudo — e viu o tabuleiro virar
Adaílton Fúria (Partido Social Democrático — PSD), prefeito reeleito de Cacoal com mais de 83% dos votos em outubro de 2024, chegou ao início de 2026 com um perfil invejável para qualquer pré-candidato: alto índice de aprovação, gestão reconhecida no interior, idade jovem — completará 40 anos em 2026, com 13 anos de vida pública — e o respaldo do governador Marcos Rocha (MDB). O cenário parecia montado para uma candidatura sólida ao Palácio Rio Madeira.
Então o campo começou a se mover.
Em janeiro de 2026, Expedito Netto saiu do PSD, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e teve sua pré-candidatura ao governo aprovada pela Federação Brasil da Esperança, composta por PT, Partido Verde (PV) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB). na última quarta-feira, Hildon Chaves se filiou ao União Brasil, com aval da direção nacional da legenda, reorganizando o tabuleiro eleitoral de 2026 em Rondônia e abrindo mais uma frente de competição no centro da disputa.
Para Fúria, a conta chegou rápido.
A armadilha chamada Marcos Rocha
O movimento que deveria turbinar a pré-candidatura de Fúria — o apoio declarado do governador Marcos Rocha — produziu um efeito colateral que os estrategistas do PSD não esperavam nessa velocidade. Em fevereiro de 2026, Rocha declarou publicamente apoio ao prefeito de Cacoal, fazendo com que Fúria saísse da posição de “azarão” e passasse a figurar entre os favoritos da disputa, especialmente na capital, onde ainda não possui o mesmo prestígio que mantém no interior.
O problema é que em eleições de sucessão — especialmente quando o mandatário não pode reeleger-se — o apoio do governador de plantão funciona como uma faca de dois gumes. Do ponto de vista logístico, é uma vantagem real: estrutura partidária, acesso à máquina, presença nos municípios do interior onde a eleição costuma ser decidida. Do ponto de vista narrativo, porém, é um fardo.
“Netto é o candidato do PT, Fúria o candidato de Expedito Júnior e Marcos Rocha, Rogério o candidato de Jair Bolsonaro e eu o candidato do povo.” — Samuel Costa, pré-candidato pela Rede Sustentabilidade, resumindo em uma frase o que os adversários de Fúria passaram a repetir nos bastidores.
A declaração de Costa, feita em março de 2026, sintetiza o enquadramento que os demais pré-candidatos passaram a usar para posicionar Fúria como representante do status quo. Para um candidato que construiu sua imagem no interior como gestor eficiente e independente, ser identificado como o “escolhido do palácio” é o tipo de narrativa que corrói a base mais valiosa que possui: a de gestor que entrega resultados sem dever favores ao establishment estadual.
A pulverização do centro e os votos que não chegarão automaticamente
O segundo problema de Fúria é geográfico e ideológico ao mesmo tempo. Num cenário simplificado — aquele que o PSD provavelmente calculou em meados de 2025 — a esquerda e o centro-esquerda em Rondônia chegariam ao primeiro turno sem candidatura competitiva. Nesse vácuo, votos moderados e progressistas migrariam naturalmente para Fúria como alternativa ao bolsonarismo de Marcos Rogério (Partido Liberal — PL) e ao excesso de fragmentação na direita.
Com a entrada de Expedito Netto, o PT aposta numa reconstrução estratégica no estado, num ambiente majoritariamente conservador. Internamente, o nome do ex-deputado ainda enfrenta resistências dentro da própria esquerda rondoniense, especialmente em setores mais tradicionais, mas o apoio da direção nacional pesa decisivamente.
Já Hildon Chaves traz outro tipo de complicação. Com gestão recente bem avaliada como ex-prefeito de Porto Velho e agora com estrutura partidária mais robusta pelo União Brasil, Chaves tem vantagens claras de posicionamento no campo do centro, embora enfrente o desafio clássico de quem parte da capital: precisa convencer o eleitor do interior de que conhece suas demandas.
O resultado prático: em vez de ocupar o espaço de centro como candidato único de renovação moderada, Fúria agora disputa essa mesma fatia do eleitorado com pelo menos dois adversários com estrutura e reconhecimento de nome. A divisão desses votos no primeiro turno pode ser suficiente para comprometer sua passagem para o segundo turno em boa posição. E para complicar ainda mais, Hildon anunciou que seu vice será o deputado estadual Cirone Deiró, que também é da região de Cacoal.
O que o mapa eleitoral diz sobre os riscos reais
A polarização em Rondônia em 2026 não será entre esquerda e direita no sentido clássico, mas sim entre candidatos do espectro de direita, centro-direita e extrema-direita, com Marcos Rogério (PL), Adaílton Fúria (PSD), Hildon Chaves e o delegado Rodrigo Camargo (Podemos) disputando espaços sobrepostos. Já os pré-candidatos Expedito Netto (PT), e outros da ala progressista devem disputar entre si o espaço do eleitorado progressista.
Nesse quadro, Fúria precisa resolver uma equação difícil: ou reposiciona seu discurso de forma clara em relação ao governo Rocha — o que pode gerar ruído com o próprio partido e com o governador — ou aceita o enquadramento de “candidato da continuidade” e aposta que a estrutura logística compensa o desgaste narrativo.
Entre os pré-candidatos da chamada “nova safra”, Fúria e Camargo enfrentam problemas similares na busca de um vice de Porto Velho, maior colégio eleitoral do estado, com mais de 360 mil eleitores aptos a votar em 2024, para formatar a dobradinha interior/capital. Sem resolver o problema do vice, a candidatura permanece exposta na maior praça eleitoral de Rondônia — e é exatamente onde Hildon Chaves tem mais presença e memória de gestão.
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