Feminicídio por agentes de segurança: dois casos em 48 horas expõem padrão
Casos de Tiago Sóstenes (BA) e Diego Oliveira (ES) reacendem debate sobre violência de gênero dentro das instituições de segurança e a urgência de protocolos preventivos
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Em resumo
Dois feminicídios cometidos por agentes de segurança pública em 48 horas chocam o país: um diretor de presídio na Bahia e um PRF no Espírito Santo
Ambos os casos seguem padrão recorrente: violência doméstica praticada por quem deveria proteger, com uso de arma de serviço ou acesso facilitado a armamento
Dados de 2025 apontam recorde histórico de feminicídios no Brasil (1.568 casos), com crescimento de 52% nos crimes cometidos com arma de fogo
Por que isso importa agora: A proximidade temporal dos casos e o perfil dos suspeitos pressionam instituições a revisar mecanismos de controle interno e prevenção à violência de gênero entre seus quadros.

Na madrugada desta segunda-feira (23), Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória (ES), foi morta a tiros dentro de sua residência pelo namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, que em seguida tirou a própria vida. Horas antes, no domingo (22), Flávia Barros, empresária de 38 anos, foi encontrada morta em um hotel de Aracaju (SE); o suspeito é Tiago Sóstenes Miranda de Matos, diretor do Conjunto Penal de Paulo Afonso (BA), que permanece internado em estado grave após tentativa de suicídio.
Dois casos, dois estados, um mesmo padrão: feminicídios cometidos por homens que integram instituições de segurança pública.
“Tudo indica que o caso se trate de um feminicídio”, afirmou Fabrício Dutra, delegado-chefe do Departamento Especializado de Homicídio e Proteção à Pessoa do Espírito Santo, sobre a morte de Dayse Barbosa.
O que se sabe sobre os dois casos
No caso de Aracaju, o crime ocorreu em um quarto de hotel no bairro Coroa do Meio. Segundo a Polícia Civil de Sergipe, hóspedes ouviram disparos e acionaram a PM; a porta do quarto estava arrombada e Flávia foi encontrada sem vida. Tiago, policial penal e bacharel em Direito, havia iniciado relacionamento com a vítima há cerca de uma semana, conforme apurado por amigas da empresária. A Secretaria de Administração Penitenciária da Bahia (Seap-BA) informou, em nota, que o servidor "não responde a processo administrativo disciplinar, possuía histórico funcional regular" e não apresentava "indicativos de instabilidade de ordem pessoal ou emocional"
Em Vitória, o crime aconteceu por volta das 3h, na casa do casal no bairro Caratoíra. De acordo com a Prefeitura, Diego invadiu o imóvel usando uma escada e quebrou a porta do quarto onde Dayse dormia; ela foi baleada cinco vezes na cabeça. O prefeito Lorenzo Pazolini confirmou que o pai da vítima estava no local e ouviu os disparos. Dayse foi a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal da capital capixaba e deixa uma filha. A Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Mulher (DHPM) assume as investigações.
Um padrão que se repete: quando o protetor é o agressor
Os dois episódios não são isolados. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número da série histórica desde a tipificação do crime em 2015. Mais grave: feminicídios cometidos com arma de fogo cresceram 52% no último ano, e agentes de segurança pública figuram entre os principais autores.
Pesquisas apontam que, em alguns estados, até 80% dos feminicídios no primeiro trimestre foram cometidos por agentes de segurança.
O fenômeno revela uma contradição estrutural: homens treinados para usar a força e portar armas de serviço reproduzem, no âmbito doméstico, padrões de controle e violência letal contra parceiras.
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O que dizem (e o que não dizem) as instituições
A Seap-BA destacou que acompanha o caso de Tiago por meio da Corregedoria e que manteve contato com autoridades sergipanas. No entanto, a nota não menciona se há protocolos internos para identificar sinais de violência doméstica entre servidores ou se existe monitoramento preventivo. A mesma lacuna se observa na resposta inicial das instituições capixabas sobre o caso de Diego.
“A apuração do crime está sob responsabilidade da Secretaria da Segurança Pública do Estado de Sergipe”, informou a Seap-BA, reforçando a divisão de competências — mas sem abordar medidas proativas de prevenção
Especialistas em segurança pública alertam que a ausência de mecanismos internos de escuta, acompanhamento psicológico e responsabilização rápida permite que comportamentos de risco passem despercebidos até que se tornem irreversíveis. A Lei Maria da Penha prevê medidas protetivas de urgência, mas sua aplicação dentro das corporações ainda enfrenta barreiras culturais e hierárquicas.
Por que esses casos importam para todo o Brasil
Embora os crimes tenham ocorrido em Sergipe e Espírito Santo, suas implicações são nacionais. Primeiro, porque expõem uma falha sistêmica: instituições de segurança que não conseguem prevenir que seus próprios integrantes pratiquem violência de gênero. Segundo, porque reforçam a urgência de políticas públicas que integrem prevenção, formação continuada e responsabilização efetiva.
Desde a criação da Lei do Feminicídio, em março de 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no Brasil por sua condição de gênero Cada número representa uma vida interrompida, muitas vezes após sinais ignorados. Quando o agressor é um agente de segurança, o dano é duplo: à vítima direta e à confiança social nas instituições que deveriam garantir proteção.
O que vem pela frente
As investigações dos dois casos seguem em andamento. A Polícia Civil de Sergipe deve concluir o inquérito sobre o feminicídio de Flávia Barros nas próximas semanas. No Espírito Santo, a DHPM aguarda laudos periciais, incluindo análise dos celulares das vítimas, para entender a motivação do crime contra Dayse Barbosa.
Enquanto isso, organizações da sociedade civil pressionam por respostas institucionais. A pergunta que fica não é apenas sobre punição — necessária, mas tardia —, mas sobre prevenção: que mecanismos concretos as instituições de segurança estão dispostas a adotar para identificar e interromper ciclos de violência antes que se tornem letais?
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Feminicídios por agentes de segurança em BA e ES expõem padrão nacional. Entenda os casos, os dados e a urgência de prevenção institucional.
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