Ex-deputado Tiziu se entrega após dois anos foragido em caso de cassiterita ilegal na Yanomami
Mandado de prisão preventiva foi emitido na Operação Forja de Hefesto; esquema investigado pela PF movimentou mais de R$ 190 milhões em minério extraído de terra indígena
Em resumo
Ex-deputado Jidalias dos Anjos Pinto (o “Tiziu”) se apresentou à polícia em Cerejeiras (RO) nesta segunda-feira (30), após dois anos e três meses foragido
Ele responde por organização criminosa, lavagem de dinheiro e usurpação de patrimônio da União em esquema de extração ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami
Investigação da Polícia Federal aponta que o grupo movimentou mais de R$ 190 milhões em 2021 com venda do minério a grandes empresas nacionais e multinacionais
Por que isso importa: o caso expõe a conexão entre poder político regional, garimpo ilegal em terras protegidas e cadeias globais de suprimento de minérios estratégicos.
O ex-deputado estadual Jidalias dos Anjos Pinto, conhecido como “Tiziu”, se apresentou nesta segunda-feira (30) à Delegacia de Polícia Civil de Cerejeiras, no Cone Sul de Rondônia, após dois anos e três meses foragido. Ele responde a mandado de prisão preventiva emitido pelo juiz federal Victor Oliveira de Queiroz, da Justiça Federal em Roraima, no âmbito da Operação Forja de Hefesto, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2023. A investigação apura um esquema criminoso de extração e comercialização de cassiterita retirado ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, com indícios de lavagem de dinheiro e usurpação de patrimônio da União.
“Tiziu seria proprietário de maquinários utilizados na atividade de extração mineral dentro do território indígena”, apontam as investigações da Polícia Federal.
Após os procedimentos na unidade policial, o ex-parlamentar foi encaminhado à Casa de Detenção local. A defesa de Tiziu ainda não se manifestou publicamente sobre os termos da apresentação.
Como funcionava o esquema de extração e lavagem de recursos
As investigações da Operação Forja de Hefesto revelaram uma estrutura complexa que conectava a extração ilegal em área protegida a empresas formais do setor mineral. De acordo com a Polícia Federal, em apenas cinco meses do ano de 2021, uma empresa investigada comprou mais de R$ 166 milhões em cassiterita de uma mineradora que operava ilegalmente no território indígena.
O minério era extraído da Terra Indígena Yanomami sem qualquer autorização ambiental ou fundiária, transportado para unidades de beneficiamento em Rondônia e, em seguida, vendido a grandes fundidoras. A empresa White Solder Metalúrgica e Mineração Ltda, sediada em São Paulo, foi identificada como uma das principais compradoras do material.
A cassiterita, conhecida como “ouro negro” por seu valor estratégico na produção de estanho, é matéria-prima essencial para a indústria eletrônica global
O esquema utilizava cooperativas de garimpeiros e empresas de fachada para “lavar” a origem ilegal do minério antes de inseri-lo no mercado formal
Transações financeiras apontam movimentações atípicas: um gerente bancário com salário registrado de cerca de R$ 5 mil movimentou mais de R$ 2,6 milhões em poucos meses, segundo apurações da PF
“A empresa compradora, que atua no ramo de fundição do minério, ‘deliberadamente ou por negligência’, não investigou a origem da cassiterita que ela comprava”, concluiu a Polícia Federal em relatório da operação.
O papel de Tiziu na estrutura investigada
Jidalias dos Anjos Pinto foi deputado estadual por Rondônia entre 2007 e 2010 e construiu base política e empresarial na região de Ariquemes. As investigações indicam que ele atuava como fornecedor de maquinário pesado para as frentes de garimpo dentro da Terra Yanomami, além de participar da articulação logística e financeira do esquema.
Em interceptações telefônicas apreendidas pela PF, Tiziu aparece discutindo com parceiros do esquema questões operacionais, como o transporte de valores para pagamentos a lideranças indígenas e a manutenção de equipamentos de extração. Em uma das conversas, ele cobra o repasse de R$ 4 mil para cada líder Yanomami envolvido na facilitação do acesso às áreas de garimpo.
Além de Tiziu, outras duas pessoas permanecem foragidas com mandados de prisão preventiva ativos: Nelcides de Almeida Mello, conhecida como “Gabiru”, administradora de mineradora com atuação ilegal na terra indígena, e Filipe José da Silva Galvão, suspeito de ser sócio do ex-deputado nas operações.
Contexto nacional: por que o caso ultrapassa as fronteiras de Rondônia
A Operação Forja de Hefesto não é um caso isolado. Ela se insere em um esforço crescente do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e de órgãos ambientais para combater a exploração ilegal de recursos minerais em terras indígenas — uma prática que ameaça a integridade territorial de povos originários e alimenta cadeias globais de suprimento sem rastreabilidade adequada.
Em março de 2026, o Ministério Público Federal anunciou investigação contra empresas dos Estados Unidos e da Suíça pela importação de 732,8 toneladas de cassiterita extraída ilegalmente da reserva Yanomami entre 2021 e 2022. O caso ilustra como o minério retirado de áreas protegidas no Norte do Brasil pode chegar a mercados internacionais sem que as empresas compradoras exijam comprovação de origem lícita.
A Terra Indígena Yanomami, com mais de 9,6 milhões de hectares, é a maior terra indígena contínua do Brasil e abriga cerca de 30 mil pessoas
O garimpo ilegal na região está associado a desmatamento, contaminação de rios por mercúrio, violência contra comunidades tradicionais e pressão sobre serviços públicos de saúde
Em fevereiro de 2025, uma megaoperação federal apreendeu uma tonelada de cassiterita ilegal na mesma região e destruiu aeronaves usadas no transporte do minério
O que acontece agora com Tiziu e os desdobramentos da investigação
Com a apresentação de Tiziu à autoridade policial, o próximo passo será a realização de audiência de custódia, na qual um juiz avaliará a manutenção ou não da prisão preventiva. A pena cumulativa pelos crimes imputados — extração ilegal de recursos minerais, usurpação de bens da União, lavagem de capitais e integração a organização criminosa — pode chegar a 24 anos de reclusão.
A Justiça Federal já determinou o bloqueio de mais de R$ 240 milhões em contas e bens de investigados ligados ao esquema, incluindo empresas e pessoas físicas. A suspensão das atividades da mineradora investigada, que possui mais de 150 processos minerários ativos, também foi determinada como medida cautelar.
Por que este caso deve permanecer no radar
A prisão de Tiziu não encerra a investigação — pelo contrário, pode abrir novas frentes de apuração sobre a rede de proteção política e logística que sustenta o garimpo ilegal em terras indígenas. Enquanto houver demanda global por minérios estratégicos sem exigência de rastreabilidade socioambiental, esquemas como este tenderão a se reproduzir. A pergunta que fica: até que ponto as empresas que compram cassiterita no mercado formal estão dispostas a investigar a origem do que adquirem?
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