Compliance Zero: documentos ligam recursos de lavagem de dinheiro de traficante espanhol à compra do Banco Master
Fonte do mercado financeiro e documentos da CVM indicam que recursos de origem ilícita financiaram a compra da instituição; PF e MPF apuram esquema bilionário
Uma fonte do mercado financeiro, em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, revelou que Oliver Ortiz de Zarate Martin, narcotraficante espanhol condenado no Brasil, foi um dos investidores por trás da operação de compra do Banco Master pelo empresário Daniel Vorcaro. A reportagem teve acesso a documentos de transações financeiras, autos de processos judiciais e registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que corroboram as afirmações.
Morador de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, onde foi preso em 2013, Oliver Ortiz foi condenado por lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas. Em março de 2025, a Polícia Federal (PF) notificou o criminoso de que ele seria expulso do país após cumprir a pena definida pela Justiça brasileira.
O elo financeiro: Benjamim Botelho de Almeida
De acordo com a fonte ouvida, o elo entre o narcotraficante e o empresário mineiro Daniel Vorcaro é o operador do mercado financeiro Benjamim Botelho de Almeida, apontado pela PF como sócio oculto e operador financeiro de Vorcaro nos Estados Unidos. Benjamim Botelho de Almeida mantém vínculos com a corretora Sefer Investimentos – antiga Foco Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) – , que foi alvo em janeiro da segunda fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de integrar um esquema de repasse de recursos para negócios ligados à família de Vorcaro.
Uma offshore das Bahamas ligada à Sefer foi aberta nove dias depois do Banco Central ter liquidado o Banco Master. A Sefer era administradora de fundos vinculados ao Grupo Aquilla, que tinha Botelho como principal executivo e do qual Oliver Ortiz aparece como um dos investidores. Foi por meio de um fundo pertencente ao grupo que o narcotraficante investiu na compra do Banco Máxima em 2017, de acordo com a fonte que acompanhou a operação
"Recursos que foram utilizados na constituição dos fundos imobiliários – os principais produtos da atual Sefer – e também na aquisição do Banco Master – que era a instituição financeira que faltava ao Grupo Aquilla para estender as ramificações de suas negociações e negociatas – são oriundos de lavagem de dinheiro do traficante Oliver Ortiz", acrescentou a fonte ao ICL Notícias
Benjamim Botelho de Almeida é ex-funcionário do Banco Garantia, instituição financeira que deu origem ao atual BTG Pactual. Detentor de nacionalidade portuguesa, além da brasileira, ele mora em Lisboa e é visto semanalmente na Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, onde frequenta reuniões ligadas aos seus negócios, de acordo com apuração da reportagem
O esquema investigado pela Operação Compliance Zero
De acordo com as investigações da PF, que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), o esquema fraudulento do Banco Master inclui, entre outras irregularidades, a aquisição de empresas de baixo valor para, em seguida, inflar artificialmente os resultados financeiros dessas empresas, fazendo crer que elas valem mais do que seu real preço.
As operações foram estruturadas para desviar recursos de fundos de investimento e outras fontes para empresas controladas pelos envolvidos, em detrimento dos investidores, segundo a investigação. Há suspeitas de que as transações podem ter violado as leis e regulamentos do mercado de capitais, incluindo manipulação de preços, uso de informações privilegiadas e outras práticas fraudulentas.
Os autos da Operação Compliance Zero citam Benjamim Botelho como participante do esquema: "Utilização de interpostas pessoas/empresas de prateleira – as transações frequentemente envolveram empresas com ligações diretas ou indiretas com Daniel Vorcaro, Benjamim Botelho e outros indivíduos-chave, levantando sérias preocupações sobre conflitos de interesses e possíveis benefícios indevidos".
Em decisão assinada em 6 de janeiro, quando ainda era relator do caso, o ministro Dias Toffoli decretou que Benjamim Botelho e a Sefer fossem alvos da segunda fase da operação: "Segundo consta, em relação à Sefer, Benjamim Botelho é proprietário e controlador da Foco DTVM (atualmente SEFER Investimentos), devendo as medidas recaírem sobre seu patrimônio e em todas as participações que envolvem a Sefer".
Histórico de investigações anteriores
Daniel Vorcaro e Benjamim Botelho estão conectados a falcatruas investigadas pelas autoridades antes da eclosão do atual escândalo do Banco Master. A Compliance Zero investiga fraudes relacionadas a investimentos de fundos de previdência de servidores de estados e municípios. De acordo com a Polícia Federal, R$ 2 bilhões foram aplicados no Banco Master. Em 2020, Vorcaro, assim como Botelho, foram alvos de outra operação da PF, a Operação Fundo Fake, que já investigava justamente o mesmo tipo de operação fraudulenta quando o banco ainda se chamava Máxima
Benjamim Botelho de Almeida chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) pelos crimes de gestão fraudulenta do Banco Máxima, no período de 2014 a 2016. De acordo com as investigações, o banco teria usado o fundo de investimento Aquilla Veyron FIM – que integrava o Grupo Aquilla – para simular a valorização de investimento da instituição.
"Ocorre que o Bacen [Banco Central] descobriu que o capital disponibilizado pelo Aquila Veyron FIM para a compra de tais ações era, na verdade, do próprio Banco Máxima. Ou seja, triangularam com recursos do próprio Banco Máxima, culminando na apresentação de informações e na publicação de demonstrações financeiras que não refletiam com fidedignidade a real situação econômico-financeira da Instituição Financeira e mascarou seus demonstrativos", diz a denúncia do MPF.
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central
Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimento S/A, do Banco Letsbank S/A e da Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, bem como o Regime Especial de Administração Temporária (RAET) do Banco Master Múltiplo S/A.
A medida foi motivada pela grave crise de liquidez do Conglomerado Master e pelo comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira, bem como por graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional.
Nos termos da lei, ficaram indisponíveis, a partir daquela data, os bens dos controladores e dos ex-administradores das instituições objeto dos regimes especiais decretados.
Documentos ligam Oliver Ortiz ao Master
Ortiz aparece na lista de cotistas de fundos administrados pela antiga Foco DTVM (atual Sefer Investimentos), em documento datado de 30 de outubro de 2015. Dois anos antes, ele já havia sido condenado por tráfico de drogas pela Justiça brasileira.
A relação de cotistas das empresas do Grupo Aquilla de 2015 mostra que Ortiz – por meio de pessoa física e de empresas – era um dos cotistas do Aquilla Fundo de Investimento Imobiliário, o qual investiu em cotas do fundo São Domingos, utilizado na operação de aquisição do Banco Máxima, hoje Master .
Segundo a fonte ouvida pelo ICL Notícias, Ortiz também estava por trás do fundo Aquilla Veyron FIM e do Brazilian Multimarketing Investments LLC, uma offshore sediada nas Bahamas.
“Oliver Ortiz era um investidor que adquiria terrenos por valores bastante reduzidos na região da Baixada Fluminense e, posteriormente, os integralizava em troca de cotas de fundos de investimento geridos pela Aquilla e administrados pela Foco”, explicou a fonte do mercado financeiro
Após a integralização, esses terrenos passavam por avaliações a valor de mercado para compor o patrimônio dos fundos. Com isso, o valor atribuído aos imóveis acabava sendo multiplicado diversas vezes em relação ao preço originalmente pago por Oliver Ortiz na aquisição dos terrenos, elevando significativamente o patrimônio do investidor como cotista dos fundos. Essa é justamente um tipo de fraude apontada pela PF na investigação sobre o Banco Master.
Quem é Oliver Ortiz de Zarate Martin
O espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin foi preso em junho de 2013 no Rio de Janeiro, aos 35 anos de idade. Ele foi condenado, em dezembro do mesmo ano, à pena de 16 anos de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas.
As investigações apontaram que ele atuava no crime ao menos desde 2009, "liderando estrutura hierarquizada de envio de cocaína para a Europa, eminentemente por via marítima, elaborando rotas e empreendendo mergulhos, uma vez que é mergulhador", segundo os autos do processo.
A investigação contra o espanhol contou com a cooperação de autoridades de Portugal, da Austrália e dos Estados Unidos. De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, para lavar o dinheiro que ganhou do tráfico, Oliver Ortiz passou a adquirir imóveis no Brasil, declarados abaixo do valor real, usou empresas de fachada e registrou bens em nome de laranjas.
Posicionamentos e direito de resposta
O ICL Notícias procurou a assessoria de imprensa do Banco Master, que não respondeu aos questionamentos. Benjamim Botelho foi procurado por e-mail, assim como Oliver Ortiz. Nenhum dos dois enviou resposta. Caso o façam, o texto será atualizado. A reportagem também não conseguiu contato com Yan Hirano; o espaço segue aberto para manifestação.
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