Antes de qualquer debate acalorado nas redes sociais, convém olhar para um dado incômodo. Segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), pesquisa conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a Ação Educativa, apenas 8% dos brasileiros conseguem interpretar adequadamente um conteúdo publicado; somente 6% sabem diferenciar fato de opinião; e 29% dos adultos são analfabetos funcionais – leem, mas não compreendem plenamente o que leem. Antes de apontarmos o dedo para o “absurdo” do comentário alheio, é preciso reconhecer o terreno frágil sobre o qual estamos discutindo.
Há cerca de uma década, assistimos à retomada de uma polarização que parecia perder força. Ressurgiram embates envolvendo raça, gênero, classe social, ideologias, religiões e por aí vão. O que antes estava contido por certo constrangimento social ganhou palco, curtidas e compartilhamentos. Uma parcela barulhenta, que talvez se mantivesse à margem por falta de espaço, encontrou nas mídias digitais um megafone potente. A cultura do ódio, antes envergonhada, passou a se apresentar com orgulho.
Nesse ambiente, a disseminação de fake news prospera. Informações falsas circulam com velocidade impressionante, explorando emoções primárias: medo, indignação, ressentimento. Cria-se um processo de dissonância cognitiva, sobretudo em quem já possui limitações de interpretação ou acesso precário a fontes confiáveis. Em ano eleitoral, o fenômeno se intensifica. Mentiras repetidas à exaustão ganham aparência de verdade. A repetição não transforma erro em fato, mas o torna familiar – e o que é familiar tende a parecer verdadeiro.




